VOY(EU)R
O olhar voyeurista situa-se numa zona de fronteira, entre o pessoal e o público: o voyeur,
ao observar a intimidade do outro, de certa maneira, torna-a pública (por vezes ela é mesmo
registada em fotografia ou vídeo). Deste modo, o olhar voyeur parte sempre do princípio de
que aquilo que vê, o vê sem ser detectado. Mesmo que o outro lado saiba que está a ser
observado (como é o caso das salas de web chat existentes na internet).
O olhar voyeurista está assim situado no próprio extremo do exercício de olhar: a observação
do permitido e do proibido. Olhar o proibido é uma espécie de não olhar, porque induz no
observador/voyeur um sentimento de criminalidade, de transgressão, de consciência.
O olhar do voyeur é um olhar com consequência, ao contrário do olhar discreto que é
inconsequente.
O jogo voyeur é o jogo do próprio olhar: o nosso ser espreita em nós o eu que nos rodeia
(como na penumbra do cinema) procurando descortinar o interior dos outros.
No filme Quem quer ser John Malkovitch?, somos convidados a entrar na cabeça de John
Malkovitch através dos seus personagens e ver o que os seus olhos vêem, sentir o que os
seus sentidos sentem. A perscrutar as suas memórias, os sonhos desavindos, as ânsias e
desejos esquecidos... Esta imagem é de facto poderosa e, quanto a mim, a mais radical do
ponto de vista voyeurista: “ver e sentir o que o outro sente”, poder “ser” o outro.
No jogo voyeurista os corpos falam com gestos e palavras imaginados, por vezes sussurrados,
que se misturam com o barulho da rua, de um carro que passa, de uma musica que se
desprende no ar... Entre a penumbra os rostos ocultam-se, colocam-se rectângulos sobre
as faces, círculos ou rectângulos brancos sobre os olhos. A identidade que se mostra oculta.
Que se abre ao nosso desejo inacessível. Os rostos escapam-se... Fogem por detrás do
próprio olhar. No olhar. Do olhar. No olhar...
A cortina é elemento definidor da acção (cinematográfica, teatral), marcando o início e o fim
da acção. Ela antevê e revê a cena no cérebro do espectador. É prólogo e epílogo. E Fim.
Caiu o pano.
José Vieira

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